Germano Almeida: Cabo-verdianos estão a libertar-se de dependência do Estado

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O escritor Germano Almeida disse, em entrevista à agência Lusa, que os cabo-verdianos “estão a despertar” e a libertar-se da “excessiva dependência” do Estado, considerando que as recentes manifestações no país devem ser levadas em conta.

“O cabo-verdiano está a despertar, porque estava muito dependente, a excessiva dependência do Estado impedia o cabo-verdiano de se manifestar. É o instinto de sobrevivência. O cidadão começa a sentir que se pode manifestar e isso é muito bom”, disse Germano Almeida.

Entendendo que as redes sociais têm desempenhado um “papel importante” na mobilização das pessoas, o escritor notou que há sempre o risco do populismo, mas que este pode ser controlado.

O escritor aconselhou ainda os governantes a levarem em conta a mobilização das pessoas e perceberem que não podem fazer o que quiserem.

Germano Almeida, um dos mais conceituados escritores cabo-verdianos, abordou ainda outras questões da atualidade do país, nomeadamente a medida de isenção de vistos de entrada em Cabo Verde para turistas europeus, que considerou “demagógica” e “injustificada”.

“Sou absolutamente contra a isenção de vistos para entrar em Cabo Verde”, afirmou.

Cabo Verde vai isentar vistos de entrada no país os cidadãos da União Europeia e do Reino Unido, prevista para entrar em vigor em maio, e está a trabalhar para aplicar a mesma medida aos cidadãos dos Estados Unidos, Canadá e países europeus como a Suíça.

“Normalmente os turistas veem com o sistema de tudo incluído, gastam muito pouco dinheiro no país e se deixarem, será para as empresas, não é uma receita direta do Estado enquanto o visto era uma receita direta do Estado”, sustentou.

Na entrevista à Lusa, o escritor fez ainda a avaliação da atuação do Governo liderado por Ulisses Correia e Silva, entendendo que tem “coisas boas e más”.

“A questão dos livros (manuais escolares com erros) foi desastrosa e há mais dois ou três casos que não deixaram boa imagem. Mas eles têm boa vontade. Posso não concordar, mas é gente que tem ideais”, disse.

Relativamente à oposição do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), liderada por Janira Hopffer Almeida, o romancista classifica-a de “muito fraca”.

“A oposição do PAICV tem-se revelado um desastre. O PAICV está a fazer uma oposição que não é boa para o país. Ficou desorganizado com o último mandato, que foi completamente desastroso para o país e para eles. Por isso, precisa de se organizar. Se não são boa oposição não podem aspirar a ter o poder”, disse.

O escritor falou também necessidade de incentivar, através de prémios literários, o lançamento de obras, sobretudo dos jovens escritores e considerou “um erro” autorizar tantas universidades num país tão pequeno.

“Devia-se ter utilizado o dinheiro das privatizações, que foi gasto em consumo, para formação de gente em escolas técnicas, porque é gente que se pode exportar”, defendeu.

Por: Lusa