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Saídas da CEDEAO prejudicam financiamento e mostram fragmentação geopolítica

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A agência de notação financeira Standard & Poor`s considerou hoje que a decisão do Burkina Faso, Mali e Níger de saírem da CEDEAO vai prejudicar as relações com os financiadores externos e mostra uma fragmentação geopolítica na África Ocidental.

“A saída destes países da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) vai piorar as relações com os financiadores regionais e internacionais, confirmando também a fragmentação geopolítica na África Ocidental, o que vai aumentar as pressões sobre a segurança, economia e financiamento”, escreveram os analistas da S&P.

Na nota enviada aos clientes, e a que a Lusa teve acesso, a S&P, que avalia apenas o Burkina Faso com um `rating` de CCC+, considera ainda que a saída da CEDEAO “também aumenta o risco de adiar as eleições e enfraquecer a cooperação regional e internacional na luta contra o terrorismo” e aponta que a saída “pode também levar a sanções comerciais dentro do bloco regional, como as que foram impostas ao Níger em setembro de 2023, bem como ao isolamento económico”.

Para além disso, continua a S&P, estes três países deverão também abandonar a União Económica e Monetária da África Ocidental (UEMOA), que tem a mesma moeda, o CFA, e está indexado ao euro com garantia cambial da França.

“O mercado de títulos de dívida soberana constitui uma fonte instrumental de financiamento para os membros da união monetária; apesar dos recentes golpes de Estado, o Burkina Faso manteve acesso ao mercado da UEMOA, ao contrário do Mali e do Níger, que entraram em incumprimento financeiro relativamente à sua dívida interna em 2021 e 2023, respetivamente”, salientou ainda a S&P.

O Mali e o Burkina Faso enviaram na segunda-feira à CEDEAO uma “notificação formal” da saída dos dois países desta organização regional, segundo fontes oficiais.

Os dois países e o Níger anunciaram no domingo a decisão de abandonarem a CEDEAO.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Mali entregou a um correspondente da AFP uma cópia da carta enviada à CEDEAO e a agência noticiosa oficial do Burkina Faso informou simultaneamente que o país tinha feito o mesmo, “confirmando a decisão conjunta, tomada ontem [domingo] com o Mali e o Níger, de abandonar a instituição sub-regional”.

A informação sobre o Níger não foi inicialmente publicada. Mas as comunicações do Mali e do Burkina Faso sublinham o caráter comum da ação dos três países.

Os regimes militares no poder no Burkina Faso, no Mali e no Níger anunciaram no domingo que os seus países se retirariam “sem demora” da CEDEAO, um novo ato de rutura com consequências práticas potencialmente de grande alcance.

Num anterior comunicado de imprensa, a CEDEAO anunciava ainda não ter recebido a “notificação formal e direta” desta decisão.

De acordo com os textos da CEDEAO, esta notificação inicia o período de um ano antes de a retirada produzir efeitos.

Os golpes de Estado no Mali (24 de maio de 2021), Níger (26 de julho de 2023), Burkina Faso (06 de agosto de 2023) derrubaram governos eleitos democraticamente e conduziram ao poder juntas militares que acusaram as forças ocidentais, em particular a antiga potência colonial (França), de ingerência.

Em setembro, os três países, que tinham formado a Aliança dos Estados do Sahel (AES), acordaram reforçar a cooperação e negociaram acordos de auxílio militar, em caso de intervenção externa.

Os três países alegam também estar sob ataque de grupos extremistas islâmicos e criticaram os governos anteriores de terem falhado nessa matéria.

As tropas francesas foram expulsas e há o registo de elementos do grupo de mercenários russo Wagner no terreno.

A CEDEAO tem criticado os governos dos três países e vários governantes admitiram a possibilidade de ações militares no terreno para repor a ordem democrática.

Até há dois anos, Portugal teve militares no Mali, no quadro da cooperação internacional.

Por: Lusa